vendredi 17 avril 2015

Nova associação de professores rejeita acordo ortográfico nos exames nacionais

A defesa da possibilidade de os estudantes utilizarem, este ano, ambas as grafias, nas provas nacionais, é a primeira iniciativa da nova associação, a Anproport.
  
Fernando Nabais, presidente de nova associação de professores de Português Paulo Pimenta
A primeira iniciativa da direcção da Associação Nacional de Professores de Português (Anproport), que este sábado faz a sua apresentação pública, será reclamar junto do Ministério da Educação e Ciência (MEC) que seja permitido o uso da grafia de 1945 aos estudantes que este ano fazem exames nacionais de Português. O presidente, Fernando Nabais, argumenta calendário de aplicação à avaliação externa do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) foi estabelecido “na expectativa de que a nova grafia estaria, nesta altura, consolidada, o que está muito longe de se verificar”.
“A Anproport não foi criada contra o AO90 nem se afirma contra ele. Mas defende que o acordo deve ser debatido e avaliado e que, se se concluir que é prejudicial, deverá revogado”, disse Fernando Nabais, em declarações ao PÚBLICO. Sublinhava, assim, um dos pontos em que a Anproport se distingue da Associação de Professores de Português (APP), criada em 1977, cuja actual presidente, Edviges Ferreira, afirmou, recentemente, que “se o MEC determina que o AO90 é para cumprir, [os professores] só têm de obedecer”.
Segundo Fernando Nabais, a perspectiva da nova associação é que “nada passa a ser positivo pelo único facto de estar legislado. No que respeita à ortografia, em particular, diz, “o que actualmente se verifica é o caos, que resulta da utilização simultânea de ambas as grafias e do que não é uma coisa nem outra”. “Não é invulgar depararmos com palavras que não existem na publicidade, nas legendas da televisão e até em documentos oficiais”, repara. Considera que a situação é especialmente grave em relação aos alunos do 12.º ano, para os quais uma centésima a menos ou a mais pode determinar a entrada ou não num curso do ensino superior. Isto porque, no limite, os estudantes podem perder até quatro valores (em 20) devido a erros ortográficos, sublinha.
Outro dos motivos que Fernando Nabais aponta para que parte dos docentes da disciplina não se reveja na mais antiga associação profissional, é a postura daquela face “ao regresso dos clássicos e à revalorização da história da literatura e da própria literatura” no novo programa do ensino secundário, que será aplicado pela primeira vez no próximo ano lectivo.
“Ouvimos a presidente da APP defender que do programa deviam constar autores mais recentes e mais próximos da realidade dos alunos, que de contrário passarão a detestar a disciplina. Já nós consideramos inaceitável que um aluno possa fazer 12 anos de escolaridade sem saber que D. Dinis ou Fernão Lopes escreveram uma linha. Quando se toma este tipo de decisões, o critério não pode ser se os alunos se identificam ou não imediatamente com as obras”, disse, defendendo “o rigor e a exigência”.
Contactada pelo PÚBLICO, a presidente da APP, Edviges Ferreira, assegurou que a direcção da associação se fará representar na apresentação pública da Anproport, marcada para as 11h deste sábado na Biblioteca da Escola Secundária Pedro Nunes, em Lisboa. “Na medida em que tem nos seus órgãos sociais os autores das metas e dos novos programas de Português, é muito natural que as pessoas que integram a nova associação não se revejam nas posições da APP, que os tem contestado publicamente. Mas isso não tem mal nenhum, tornará o debate mais interessante, pelo que fazemos questão de estar presentes e de desejar as maiores felicidades aos nossos colegas”, afirmou.
Quanto ao AO90, Edviges Ferreira esclareceu que “a APP nunca tomou uma posição favorável ou desfavorável” por entre os seus associados “não existir unanimidade em relação ao assunto”. Segundo diz, “existindo professores de Português que concordam com a aplicação do AO90 e outros que discordam”, “a única posição possível da associação é colocar isso em segundo plano e proteger alunos, cumprindo a lei e os despachos que determinam que este ano o AO90 é aplicado na avaliação externa”.
Em relação ao programa do secundário, Edviges Ferreira recordou o parecer da APP feito na altura da sua apresentação. Nessa ocasião,  a presidente da APP criticou o elevado número de obras literárias incluído no programa, o facto de aquele ser excessivamente extenso e prescritivo (com a indicação de capítulos específicos de cada obra e até de excertos e de poemas) e a sua alegada desadequação, por exemplo, a alunos do 10.º de escolaridade, “um ano crítico, marcado por altos níveis de insucesso, por corresponder a uma fase de transição e por as turmas serem muito heterogéneas”.
A APP já se manifestoum também contra o novo programa de Português e Metas Curriculares para o Ensino Básico, cuja consulta pública terminou esta sexta-feira. Defendeu, em concreto, a sua não homoligação, por considerar que o documento "tem erros educativos e científicos". A Anproport não emitiu qualquer parecer sobre esse ou outros assuntos, disse Fernando Nabais, que adiantou que essas serão tarefas para desenvolver nos próximos meses.
, 17/04/2015

vendredi 14 novembre 2014

Acção judicial popular contra Acordo Ortográfico


Mais de uma centena de personalidades de diversas áreas – incluindo académicos, escritores, músicos, actores e políticos de vários quadrantes – intentou, no Supremo Tribunal Administrativo, uma acção judicial popular contra a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) ao sistema de ensino público, do ensino primário ao secundário.
Manuel Alegre, Diogo Freitas do Amaral, António Arnaut, António Bagão Félix e Isabel Pires de Lima são alguns dos ex-governantes que subscrevem a acção, a par de José Pacheco Pereira e Miguel Sousa Tavares, dos músicos António Victorino d’Almeida, João Braga, Pedro Abrunhosa, Pedro Barroso ou Rão Kyao, dos escritores Joaquim Pessoa e Teolinda Gersão, da actriz Lídia Franco ou de professores e ensaístas, como Miguel Tamen, Raul Miguel Rosado Fernandes ou o prestigiado camonista e teórico da literatura Vítor Aguiar e Silva.
A acção judicial foi patrocinada por Francisco Rodrigues Rocha, docente da Faculdade de Direito da Universidade Lisboa, e a respectiva fundamentação foi preparada a partir de pareceres jurídicos de Ivo Miguel Barroso, docente da mesma faculdade, e de Fernando Paulo Baptista, filólogo que publicou um livro em que analisa o modo como a aplicação do AO90, ao impor “a supressão arbitrária” das consoantes “c” e “p”, contribuiu para distanciar a ortografia portuguesa das principais línguas europeias, do castelhano, francês, italiano ou romeno ao inglês e alemão.
Este mesmo conjunto de pessoas interpôs também um requerimento à Procuradora-Geral da República, solicitando que o Ministério Público intente uma acção pública contra a "imposição inconstitucional" do AO90.
Duas iniciativas que se vêm somar à queixa contra o AO90 que Ivo Miguel Barroso fez chegar no final de 2001 ao Provedor de Justiça e que não teve, até ao momento, qualquer resposta.
Se a acção popular vier a obter uma decisão favorável do tribunal, a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 nos vários escalões do ensino público, do 1.º ao 12.º ano, será considerada ilegal.
In Público,  por

samedi 3 mai 2014

Os ventos da liberdade

Manuel Alegre
26-04-2014 
Faz hoje 40 anos que as portas de Caxias e de Peniche se abriram para libertar os presos políticos, num gesto que confirmou o sentimento de liberdade que irrompeu do 25 de Abril. Recordemos essa data ouvindo Amália cantar “Meu amor é marinheiro”, de Manuel Alegre, que anuncia essa libertação:
“Hei-de passar nas cidades
como o vento nas areias
e abrir todas as janelas
e abrir todas as cadeias”.



“Meu amor é marinheiro”,
Amália Rodrigues, letra de Manuel Alegre, música de Alain Oulman



Obrigado por tudo.




samedi 1 mars 2014

A AR recusou, mais uma vez, rever a entrada em vigor do Acordo Ortográfico

«A AR recusou, mais uma vez, rever a entrada em vigor do Acordo Ortográfico, escudando-se, em contrapartida, atrás de uma vaga resolução de efeito útil nulo. Já passou pela mão de todos os deputados e governantes uma lista impressionante de nomes de escritores, professores, académicos ou jornalistas – os que usam a língua profissionalmente – que não deixa qualquer dúvida de que apenas uma minoria, e já sem quaisquer argumentos válidos, continua a sustentar este crime. É como se, à revelia de médicos, Governo e deputados entendessem regulamentar as condições técnicas do exercício da medicina.
Mas a língua é ainda mais do que o instrumento de trabalho de quem escreve profissionalmente, pois é também um factor de unidade e identidade nacionais determinante. Há, pois, qualquer coisa de misterioso e estranho por trás da teimosia de governantes e deputados, de todos os partidos, em não ceder aos constantes apelos que de todos os lados recebem. Mais estranho ainda é nem sequer se darem ao trabalho de explicar quais as ponderosas razões de Estado que os levam a vender a língua que é a nossa. Como se isso não fosse importante. Ou como se não devessem qualquer explicação aos portugueses, mesmo depois de verem países como Angola, Brasil e Moçambique resistirem ao AO. É nestas alturas, e como último recurso, que eu gostava de ter um Presidente da República que, no uso da sua função de garante da independência nacional (de que a preservação da língua é parte indissociável), puxasse do artigo 120º da Constituição e matasse de vez esta vergonha. Mas, infelizmente, também não é o caso.»

Miguel Sousa Tavares, Expresso, 01/03/2014

mardi 5 novembre 2013

O Equador e o petróleo


1 O Equador é um estado latino-americano, voltado para o Pacífico, a que pertencem as célebres ilhas Galápagos. Tem quatro vezes a extensão de Portugal mas é talvez dos países mais pequenos da América Latina.
A capital, Quito, fica num dos pontos mais altos do país e é uma cidade de extrema beleza, que visitei duas ou três vezes.
O seu presidente Rafael Correa é um político progressista, que tem dado à população mais pobre do Equador um grande impulso. É respeitado e popular. Mas o Equador é dotado de petróleo, o que tem sido, de certo modo, uma desgraça para o país.
Isso faz-me lembrar o tempo do salazarismo, em que um ministro, muito alegre, veio dar ao ditador a notícia de que havia petróleo em Angola. E Salazar levou as mãos à cabeça e comentou: "Que outra desgraça havia de nos acontecer..."
Vem isto a propósito de que no Equador houve uma petrolífera americana de
 nome Chevron/Texaco, que entre 1964 e 1992 desenvolveu as suas atividades
 nas províncias de Sucumbios e de Orellana, na região amazónica, uma das zonas 
com maior biodiversidade do planeta.
A Texaco, ao que me dizem, derramou cerca de 71 milhões de resíduos de 
petróleo e 64 milhões de petróleo em bruto em mais de dois milhões de hectares 
na Amazónia equatoriana, tal como determinou um tribunal equatoriano, depois 
de nove anos de processo judicial.
Este desastre ambiental - e é de um desastre ambiental que se trata - foi 85 vezes maior do que o derrame da British-Petroleum no golfo do México e 18 vezes maior do que o do Exxon Valdez no Alasca.
Trata-se de uma catástrofe que podia ser evitada facilmente se a petrolífera não tivesse sido irresponsável e não tivesse utilizado - para gastar menos - técnicas obsoletas. A Chevron/Texaco, ao que parece, violou o contrato de exploração que se comprometia a utilizar tecnologias de reinjecção segura dos resíduos tóxicos no subsolo. Para quê? Para maximizar os seus enormes benefícios económicos, utilizando no Equador uma tecnologia que já não era utilizada nos Estados Unidos e que a empresa, tendo prometido diminuir o impacto negativo das operações hidrocarboríferas, não fez. Se assim tivesse acontecido tinha evitado a contaminação no Equador.
Mas a Chevron/Texaco fugiu às suas prometidas obrigações ambientais e foi condenada a pagar uma indemnização de 9,6 mil milhões de dólares e não cumpriu. Além disso, escondeu muitas piscinas de resíduos tóxicos, cobrindo--as com capas superficiais e deixando-as no mesmo estado contaminado, o que tem sido um mal para o povo equatoriano. A empresa petrolífera processou o Estado equatoriano, quando este nunca teve nada que ver com o assunto.
A verdade é que a União das Nações Sul-americanas expressou a sua solidariedade com o povo e o Estado do Equador, vítimas de campanhas desprestigiantes.
O petróleo é sem dúvida nenhuma de grande importância, mas quando só se 
veem os negócios e o dinheiro e se desprezam as pessoas e os Estados, tudo 
vai mal. E os Estados Unidos ficaram desclassificados. Pobre Barack Obama que, 
numa causa destas, não tem qualquer culpa no cartório. Mas tudo lhe cai em 
cima.
VIDAS COM SENTIDO
Permitam-me que vos fale da Fundação que represento e que chame a vossa atenção para a série de conferências intitulada "Vidas com Sentido", relativas a todos os dirigentes do Partido Socialista já falecidos.
Foram pessoas de grande qualidade humana, política e ética, que nunca se apropriaram de dinheiros públicos, apesar de terem exercido altos cargos. Estadistas que gastaram o seu próprio dinheiro com o partido e foram sempre impolutos. Todos tiveram a preocupação de que ser estadista nada tem que ver com negócios. Antes pelo contrário. Os homens de negócios não devem ser estadistas, porque isso implica uma contradição nos termos...
Essas sessões de homenagem são feitas às quintas-feiras às 18h00, tendo começado por Francisco Ramos da Costa, economista, diplomata e grande militante antifascista; Raul Rêgo, jornalista, Pena de Ouro, que lhe foi atribuída na Europa pelo caso do jornal República, que ele dirigia e onde ficou sequestrado com os outros jornalistas no chamado "Caso República"; o nosso presidente querido Fernando Valle, que dirigiu com António Arnaut o Congresso, onde a Acção Socialista se transformou em Partido Socialista; e, ultimamente, Manuel Mendes que infelizmente morreu antes do 25 de Abril e não chegou a ser do PS mas apenas da Acção Socialista, e que se bateu na guerra civil de Espanha, ao lado dos republicanos, assaltou a esquadra onde é hoje a Faculdade de Economia e Finanças de Lisboa, para libertar da prisão o diretor da Fazenda Pública que teve a audácia de fazer entrar os primeiros tanques militares que houve em Portugal, para uma revolução antissalazarista, como muitas outras infelizmente frustrada. Foi um verdadeiro seareiro (da revista Seara Nova) e um autor consagrado de romances, contos, biografias e também de escultura e artes plásticas. Hoje, está quase esquecido.
O próximo, na quinta-feira, dia 7, será o advogado e ex-ministro da Justiça e das
Finanças (como Afonso Costa, lembrei-lhe eu muitas vezes), Salgado Zenha,
apresentado pelo Presidente Jorge Sampaio.
Estas homenagens a personalidades já falecidas e que tudo fizeram pela Pátria, pela República e pelo socialismo democrático, sem receber nada em troca, sublinho, vão-se prolongar para o próximo ano. Falamos de verdadeiros estadistas ética e humanamente impolutos e que, quanto a mim, merecem ser uma referência para as novas gerações.
A verdade é que nos últimos dois anos e meio a política confunde-se, cada vez mais, com os negócios e por isso é fácil, a quem não tenha conhecimento de causa, julgar que todos os políticos são uns trafulhas ou simples negociantes.
Numa época de crise em que tanta gente é obrigada a emigrar de Portugal e nem sequer tem dinheiro para dar de comer aos filhos, pode generalizar-se a ideia de que os políticos são todos uns gatunos. Ora não são. Há políticos que são (e foram) homens de Estado e um exemplo do que deve ser um político que ama a sua Pátria e o povo a que pertence.
JOHN KENNEDY
Faz cinquenta anos que foi assassinado John Kennedy, um político americano,democrático, ilustre Presidente eleito dos Estados Unidos, queentusiasmou o mundo e mesmo personalidades difíceis como De Gaulle, queorecebeu em Paris com extremo respeito e admiração e muitos outros stadistas e ferentes países.Fui, sem o conhecer, um grande admirador de John Kennedy, que sempre me pareceu um exemplo de democrata, de homem progressista e com grandes valores éticos.
Lembro-me bem do momento em que a notícia do seu assassinato chegou. Era então um jovem advogado e foi uma jornalista americana, do New York Times, correspondente em Portugal, Marvine Howe, que me informou. Fiquei verdadeiramente sem saber o que dizer e fazer. Foi algo que me impressionou e marcou imenso, para a vida inteira. Sobretudo porque depois da morte de John Kennedy foi também assassinado o seu irmão e conselheiro fiel, Robert Kennedy, candidato a Presidente, como o seu irmão.
Como é possível que um homem na flor da idade, católico praticante (o que era raro nesse tempo nos Estados Unidos), e de uma família daquela qualidade, ter sido morto e logo a seguir os assassinos terem repetido a dose matando o seu irmão, igualmente uma pessoa de enorme gabarito?
Pareceu-me qualquer coisa como se a América tivesse desaparecido, bem como a democracia e o progresso, pelos quais eu, na minha modéstia, também lutava.
Passaram cinquenta anos e a imprensa mundial, que eu saiba, pouco tem falado
 dos Kennedy. Houve mais assassinatos, embora diferentes, como o de Martin
 Luther King, herói contra o racismo e pela unidade de todos os americanos e por
 isso Prémio Nobel da Paz.
É possível que as mortes dos Kennedy, tivessem que ver com a crise dos mísseis de Cuba e o princípio da Guerra Fria, com a construção do Muro de Berlim (que anos depois visitei e me fez uma imensa impressão) e o conflito aceso entre soviéticos e americanos. Estava então a começar a guerra do Vietname...
Kennedy, assassinado a 22 de Novembro de 1963, foi um extraordinário Presidente dos Estados Unidos da América, como hoje é unanimemente reconhecido, mesmo por alguns republicanos.
PORTAS QUER SER E NÃO SER AO MESMO TEMPO
O texto longo e confuso que Portas leu na sexta--feira passada e que não faz qualquer sentido, como escreveu Vasco Pulido Valente, é realmente, como disse Pacheco Pereira, "um manual para ler no vazio". Porque, cito, "este papel de Portas não foi tomado a sério por ninguém a começar pelos seus colegas do Governo"...
Vi e ouvi, com bastante esforço, o discurso que proferiu, muito bem vestidinho,
 como sempre e com grandes sorrisos, mas confesso que apesar de me esforçar 
por estar atento, quase não compreendi coisa nenhuma. Era de facto, um guião  
ou melhor, uma salganhada - sem qualquer sentido.
Tinha de apresentar o guião porque o prometera fazer há longos meses. Mas aproveitou para dizer tudo ao contrário do que desejaria o seu patrono Passos Coelho, que quando fala no sócio não lhe é nada favorável.
Realmente são duas pessoas que não se entendem, mas que se esforçam por estar juntos para não terem de se demitir ambas. Aliás, quem lhes vale é quem os comanda, ou seja, o eterno protetor de ambos: o Presidente da República. Se não fosse essa proteção - que ninguém entende - como é que conseguiriam conviver juntas?
Recentemente, um grande fadista português, seguramente o maior e mais respeitado de todos, Carlos do Carmo, teve a coragem de dizer o que pensa do Presidente da República, e não usou palavras brandas como toda a gente notou e ouviu.
Por mais que façamos, tudo tem que ver com a mesma pessoa. Chama-se Aníbal Cavaco Silva. Como é que um Presidente, a quem ainda faltam dois anos para o fim do seu mandato, não é capaz de se libertar de um Governo, completamente paralisado, sem rei nem roque, e principalmente de duas pessoas que não se entendem entre si e só existem juntas porque ele as mantém? Tem razão Carlos do Carmo.
O Presidente não quer - ou não pode por razões que se ignoram - perceber que
 se ficar até ao fim e assim continuar, ficará para todo o tempo com o ferrete do
 ódio popular, de norte a sul do País.
O discurso de Portas - Guião para a Reforma do Estado - é com efeito algo de irresponsável e que ninguém consciente pode tomar a sério. Com discursos como este está a destruir o seu próprio partido - e o pouco que resta do seu prestígio. A tentar ao mesmo tempo que se volte de novo à austeridade (o que ele não quis no passado), quando a troika e o próprio Governo de Passos Coelho assim o querem. Mas Portas disse já isso e o seu contrário. O partido dele está cada vez mais a definhar e o próprio líder todos os dias mais desqualificado... Para quê? Pela vaidade insuportável de Portas ou por medo de que lhe atirem à cara, como o caso dos submarinos, que até agora não foi esclarecido. Portas, não tem nada que fazer. Quem manda é a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, de quem Portas não gosta nada. Como de Passos Coelho. Mas a tragédia é que não se podem separar, porque perdiam a maioria, e os lugares.
O mais estranho é que os outros ministros também fiquem calados, sem protesto, sem qualquer comentário, porque também não têm coragem de se demitir apesar de saberem que se o não fazem ficam igualmente com um ferrete, que nunca mais desaparecerá.
In DN, por MÁRIO SOARES



jeudi 6 juin 2013

Carta à Gazeta da Beira: Maria José Abranches

Obrigada pela sua resposta, à qual me permito tecer alguns comentários.

Deduzi, pelo que me diz, assim como pelos textos que assinou na “Gazeta” de 23 de Maio (o Editorial e o artigo sobre o Fórum do Interior) que, na sua qualidade de Directora, decidiu adoptar o AO90. Não sei se antes perguntou aos seus leitores se era esse o seu desejo… Pela minha parte, como ando por aí a recolher assinaturas para a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o AO (http://ilcao.cedilha.net/), só tenho encontrado, entre as pessoas que vou contactando (nos cafés, nos estabelecimentos comerciais, etc.) a maior rejeição do que consideram um ultraje e um roubo patrimoniais indefensáveis…  

Percebi também que deixa aos seus colaboradores – e muito bem - a liberdade de escreverem, para usar as expressões da Presidente do Brasil, de acordo com “a norma ortográfica actualmente em vigor”, isto é, em Portugal a de 1945 (no Brasil a de 1943), ou de adoptarem “a nova norma estabelecida”, isto é o AO90 ( veja-se o Decreto  da Presidente do Brasil: http://ilcao.cedilha.net/?p=8929#comments ).

É com profunda estranheza que constato que a mesma esquerda que se diz – e deveria ser - respeitadora da “liberdade” e da “tolerância”, e defensora dos direitos humanos fundamentais dos portugueses, se considere credenciada para nos impor  uma ortografia que desrespeita, desfigura,  corrompe  e subalterniza a nossa língua materna: a mais nobre e conseguida realização do povo e da nação que neste recanto europeu surgiram, e ao longo dos séculos se foram definindo e consolidando! E isto com uma sobranceria, um autismo e uma determinação que parecem decorrer da conhecida divisa de Cavaco Silva :”Nunca tenho dúvidas e raramente me engano”! 

Acredito que a democracia repousa essencialmente na capacidade de nos ouvirmos uns aos outros e de, juntos, encontrarmos os consensos de que nós e o país necessitamos. Socorro-me da sabedoria, sempre actual, de Eduardo Lourenço:
«É em função de um conhecimento do essencial, daquilo que não podemos abandonar sem mutilação próxima e futura, que as escolhas decisivas para o nosso futuro devem ser feitas. Na medida do possível é à totalidade do povo português, consciente e responsabilizado na sua prática a todos os níveis que compete o autodeterminar-se, e não apenas a uma classe tecnocrático-burocrática, de aleatório saber, mas, sobretudo, de específica vontade de poderio e gozo de privilégios, a única que até hoje tem fabricado a imagem portuguesa em função da qual Portugal parece escolher-se «livremente», quando afinal é (e foi) apenas por ela escolhido.» (in “O Labirinto da Saudade”)

Posto isto, queria saudar mais uma vez a “Gazeta da Beira” pelo jornal que tem sido, designadamente pelo cuidado com que tem usado o Português, a língua que lhe permite existir, até esta, a meu ver, infeliz decisão. E peço desculpa por tão claramente dizer o que penso: uma coisa é dar aos cronistas ou articulistas convidados a possibilidade de escreverem com o AO90, se assim o entenderem (o leitor que tire as suas conclusões), outra coisa é ser o próprio jornal a divulgar e  difundir essa ortografia bastarda e nefasta.

Queria também agradecer àqueles que continuam a escrever com a ortografia em vigor e correcta e pedir-lhes que não desistam, pois o país precisa deles!

Dada a actual situação do jornal, optei, com pena, por não renovar a minha assinatura, pelo que peço o favor de suspenderem o envio do mesmo pelo correio. Se, por ventura, vierem a reconsiderar, como sinceramente espero, essa decisão de adoptar o AO90, agradeço que me contactem, para que de novo possa ter o gosto de assinar e ler a “Gazeta da Beira”.  

Sem ressentimentos,


Maria José Abranches